terça-feira, 1 de dezembro de 2009

palermo shooting




boa pedida pros que curtem um cinema "alternativo" é esse título de 2008, palermo shooting. com uma carga mais filosófica acerca da natureza da imagem e sua relação com o tempo, o filme me prendeu legal. com uma montagem modernosa (tipo, som diegético, quando ele usa o fone; uns inserts simulando sua fotográfica...), em alguns momentos fica clara a citação a Antonioni com o blow-up (Wim Wenders, quem dirigiu, ao fim do filme presta homenagem póstuma tanto a ele, quanto ao Bergman). a história em si é meio mole, mas é contada de uma maneira envolvente. sobram artifícios para encantar o espectador: as internas capricham no design de interiores; as externas, rodadas na Alemanha e Itália merecem pausa pra estudo; os sonhos são de rachar a cuca. as sequências ora brincam com o tempo, ora com o espaço. isto é, em determinada cena, Finn ("our hero") caminha lentamente por um parque ao escapar de um acidente de carro enquanto um corredor o ultrapassa em fast motion. no espaço, sim, então... tem uma massa! num de seus sonhos, ele caminha normalmente por uma escadaria quando de repente o horizonte começa a se inclinar. o truque de câmera e os cortes precisos tornam esse efeito bastante real. ao fim da sequência, enquanto todos os transeuntes caminham normalmente pelo chão, ele consegue enfim se agarrar a um relógio, de onde observa o quê? o tempo, de boa.











na cena que segue, é acordado por uma pintora que mais parece a própria obra de arte. daí o filme entra naquela da trama romântica, onde eles se conhecem, se encontram novamente meio que por acaso, tal... bem bonitinho. saído das noites sem fim na alemanha, onde seus sonhos se misturam com a realidade, Finn se arremessa ao desconhecido, indo parar em Palermo. lá, ele, tanto acostumado a ver, é visto por essa gata que calmamente o traduz em rabiscos invisíveis a nós espectadores. aqui, o tempo decora o roteiro de maneira sublime. em sua vida "normal", numa night qualquer, uma morena pergunta se pode fotografá-lo, ele confirma, ela saca o celular e posando a seu lado registra esse momento. um flash pisca, assim como todos os outros flashes da casa noturna, pronto. ela agradece e se vai. aquela imagem é mais uma no meio de tantas outras. a efemeridade dessa relação é a própria característica de seu trabalho. laços que são construídos e deixam de existir no exato momento do clique (ou do recebimento da monta que lhe é de direito). no entanto, em Palermo, ele se encontra em sonhos intranquilos (boa, otto!) quando se percebe na posição de modelo. o jogo vira. a luz laranja da tarde invade mansa um velho teatro onde esse belo par de olhos azuis o fitam atentamente. a imagem aqui se constrói traço a traço, do nada, quando ele menos espera.


clara diferença no tempo das relações, do desejo e da conquista, da construção de um sentimento. ainda estranhos para com o outro, eles se rabiscam, se olham, se estudam. é tão raro achar alguém que acenda os olhos, pra que certeza ou pressa? relaxa aí e vai dar uma volta, ô! enfim, a atuação da inga busch que eu achei que as vezes "engasga", mas tá desculpadíssima, vai...
então, palermo shooting é bem interessante àquele que tem esse prazer estranho de andar só enquanto registra (independente do suporte) seu meio. muitos conceitos das teorias da imagem são apropriados pelos caras, vários deles ligados ao "aprisionamento"do tempo.
a trilha tem lou reed, portishead, nick cave... vale conferir!

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